Aquilo que Sou por Micheline Côrtes

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AQUILO QUE SOU

Minha irmã passava pela calçada do bairro onde mora, quando viu na vitrine de uma loja um quadro com uma imagem que, segundo ela, me representa.
Trata-se de uma típica imagem do interior de Minas, com suas casinhas simples, a igreja e as montanhas.
Ela ficou feliz quando viu a minha alegria ao abrir o embrulho.
Tive um misto de emoções naquele momento, emoções essas que me tomaram a mente e a alma, e não saem de mim.
Sempre tive dificuldade de me enquadrar no ritmo e nos costumes dos grandes centros.
Tenho dentro de mim muito vivo aquele jeito de ser do interior, das pessoas na janelas de suas casas, da mesa posta, da cozinha funcionando dia e noite, das conversas sem fim.
Aquele aroma típico de cidade pequena, tão peculiar e que diz tanto sobre as pessoas, está na minha memória.
Talvez, dos filhos, sou a que tem mais dificuldade de se desvincular das lembranças de uma época, de um lugar.
Não sei ao certo se a tecnologia manteve aqueles lugares das minhas lembranças intactos, e se as pessoas continuam colocando as cadeiras na calçada à noite para prosear, enquanto as crianças brincam.
Talvez esteja tudo num lugar especial da minha mente e é assim que eu prefiro guardar.
A simplicidade do interior está na vida real que levamos.
Todos sabem onde todos moram, todos sabem da onde todos vêm, todos normalmente sabem de quase tudo.
Mentir sequer passa pela nossa cabeça. Nos resumimos apenas a "ser".
À noite, a casa onde eu morava era totalmente trancada com chave e uma pesada madeira. Segundo os ditos da época, "nunca se sabe". Como se a escuridão da noite fosse permitir que coisas ruins acontecessem.
Os cães, todos "perigosos" para que guardassem a casa, deitavam e se punham a brincar sempre que uma visita chegava.
O dia clareava, e todas as portas e janelas eram abertas.
Lembro-me de raras vezes em que o portão da casa foi fechado.
A vida era "escancarada".
Não me "desescancarei". E, talvez, por isso, fique tão espantada com os malabarismos com que tenho que conviver para sobreviver.
A imagem do quadro reflete aquela simplicidade de quem apenas vive, sem se preocupar com o rebuscamento de uma situação que não perdura.
É uma simplicidade de algo contínuo, que não tem altos e baixos.
As pessoas simplesmente "são".
Eu sou aquela pessoa da casa de portas abertas, ruas de pedras e aromas dos temperos corriqueiros.
Quero ter a simplicidade de ser simples ao simplificar aquilo que insistem que não seja simples.
Simples assim!