Ditongos e Hiatos - por Micheline Ragone Côrtes

 

DITONGOS E HIATOS

Sempre fiz muitas analogias entre tudo o que via, aprendia, ouvia. A nuvem é o mapa de um país. O ator do filme no cinema é idêntico ao empresário preso por corrupção. Essa música não se parece com aquela? Consigo fazer ligação entre os assuntos e pessoas mais estapafúrdios e sem nexo para os outros. Quando aprendi na escola a diferença entre ditongo e hiato, jamais gostei do segundo. Eu separava as sílabas das palavras, e colocava cada vogal de um lado do tracinho com ódio. Até hoje, de vez em quando, me pego separando sílabas mentalmente enquanto leio, falo ou ouço. E o hiato está lá, separando as vogais. Fui buscar a razão de mais essa excentricidade, uma típica característica "tarja preta", e percebi que também não gosto de mureta entre as pistas da estrada. Por que será? Casa com família numerosa é muito complexa. São muitos interesses, desenhos, demandas. Se houvesse um hífen ou uma mureta, cada membro viveria isolado em seu mundo. Não haveria conflitos, mas não haveria convívio. No decorrer da vida, foram surgindo hífens e muretas colocadas pelas circunstâncias, pelas pessoas, por mim. Não gosto de me sentir um hiato. Preciso da proximidade do ditongo. No interior, onde todos são "primos", sendo ou não, aprendi a me referir a muitas pessoas dessa forma. Isso é tão entranhado em mim, que qualquer coisa pode ser "prima" no meu entendimento. Essa mesa não é prima daquela? O que significa que são parecidas. Gostaria que não houvesse separações entre mim e meus amigos, e que fôssemos todos como "primos". Primos são ditongos. Os hiatos que me desculpem, mas não quero um hífen me separando de pessoas que amo. Deixo os hiatos para as pessoas e coisas que me fazem mal e que merecem não apenas uma mureta, mas um abismo intransponível. O ditongo é meu primo.

por Micheline Cortes

 

 

Micheline Ragone Côrtes é a mais nova escritora que está despontando no horizonte. Apesar de ser carioca, ela não consegue se desvincular  dos laços  de Além Paraíba/MG e, assim,  passou a nos contar histórias de sua infância e adolescência.

 Devido ao talento, criatividade, irei publicar periodicamente textos de Micheline, que, com sua sensibilidade vem mudando o cotidiano pacato e tranquilo daquela pequena cidade. 

Michele é talentosa ao brincar com as palavras e cria seu próprio estilo quando trata da nossa língua como o tal ditongo e hiato que fazem parte da nossa vida. Lembrando-nos também que a palavra "hiato" também pertence ao nosso mundo, ou seja, esta enormidade de celulares e robôs ( advento do mundo moderno ) que apesar de nos ajudar bastante no dia a dia, nos afastam das pessoas e nos impede de olhar para as pessoas que são talentosas, criativas, ou seja, passar um olhar mais atento que seja ao nosso dia a dia, valorizando o Sol, a Lua e sobretudo um outro olhar para as pessoas:da nossa cidade,  amá-las, respeitá-las como indivíduos, que tem sonhos, lutam, trabalham e acreditam num futuro melhor para o nosso país. Enfim, Esse e o Brasil que queremos!

Continue a escrever e a nos encantar com suas palavras e o quanto elas podem transformar o mundo.

Parabéns Micheline!

por Marques