RAZÃO E SENSIBILIDADE. NÃO TEM NADA A VER COM MOTO... (por Fausto Macieira- Jornalista esportivo - Moto)

Razão e Sensibilidade. Não tem nada a ver com moto…

“A vida é muito curta para ser pequena”. Quem dizia isso era o escritor e político Benjamin Disraeli, que por ser judeu, enfrentou e venceu ‘centos’ preconceitos para se tornar Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha. Por ‘vida pequena’, eu entendo aquela levada em redomas, trancada a sete chaves por medo ou comodismo.

E mesmo assim, quando chega a sua hora, não importa idade, altura, peso ou religião, você parte desta para melhor (tomara). A morte é uma desconhecida cuja sombra está presente desde o nascimento, é o inexorável fim.

Quem se lembra do americano Jeff Bush, americano de 37 anos que no dia 1º de março foi tragado pelo solo enquanto via televisão no quarto de sua residência, em Seffner, Flórida? E pensar que a gente se sente seguro no nosso quarto…

A vida prega peças na humanidade todos os dias, às vezes longe, outras mais perto, algumas com nós mesmos.

E foi isso que aconteceu comigo na quarta-feira passada. Praticamente no mesmo momento em que eu comemorava o épico encerramento das incontáveis sessões de edição e finalização da série de programas sobre o Troféu Turista da Ilha de Man, recebi uma ligação da minha mulher, dizendo que o Murilo, irmão dela, havia sofrido um acidente de carro.

Pow, mas logo ele, que dirige tão bem. Há que se dizer que o meu cunhado sempre fez tudo muito bem, com uma facilidade prodigiosa para todos os afazeres da vida.

Depois de largar a segurança burocrática de um bom cargo público conseguido pelo meu sogro, o Murilo foi ser mergulhador profissional. Em pouco tempo ele trocou a cosmopolita Copacabana pelo provinciano Arraial do Cabo, uma das meças do mergulho profundo no Brasil.

E nos fins de semana, para lá fomos nós, descobrir as delícias do litoral carioca. Na época eu trabalhava como advogado, profissão rentável mas chatíssima, cheia de mesuras, ternos e rapapés. Ver o Murilo feliz debaixo d’água, cheio de amigos genuínos, de calção e sandália havaiana, comendo camarão e bebendo cerveja no bar Saint Tropez, a felicidade simples que o cercava era uma fonte de inspiração para mim.

Quando eu enfim me livrei dos ternos, o Murilo já estava em outra, atacando de incorporador e construtor de edifícios. Ele e a minha cunhada faziam todos os cálculos e eu, claro, comprei um apartamento lá. O prédio ficou perfeito, vendi o apartamento e gastei tudo na malsucedida experiência da Revista Speed Magic. Assim como ele, eu patinava no lado comercial. Aliás, eu patinava em muitos lados, enquanto ele encarava e resolvia tudo de maneira adequada e num piscar de olhos.

Elétrica, hidráulica, informática, línguas estrangeiras, tudo para o Murilo era como diz a música, fácil, extremamente fácil. Para mim, ao contrário, sou mais capaz de destruir do que consertar, comer do que cozinhar, por aí vai, minha conduta desastrada e desprovida de ciência é notável.

Exemplo recente foi no início do ano, quando fui convencido a comprar um computador no Japão. Como não avaliei direito a compra, me dei mal, pois o dito teimava em voltar às configurações originais em japonês. Deixei a máquina maldita com o Murilo, que com a ajuda do Google, conseguiu decifrar os pictogramas nipônicos. Pow, troquei de comp com ele, pois eu jamais teria vida fácil com aquela japonesada me atormentando.

Bom, voltando a quarta-feira passada, fomos para a cidade de Leopoldina, onde aconteceu o acidente. Como não tinha maiores detalhes, imaginei um quadro de perna quebrada, alguns ferimentos, coisas sérias talvez, mas não graves a ponto de levá-lo embora.

Estava enganado. Na BR 116, a maior rodovia do Brasil uma carreta da Bahia corria demais no asfalto molhado e o motorista perdeu o controle no momento em que o Murilo e a mulher vinham em sentido contrário.

Homicídio culposo por acidente de veículo, mais um algarismo nas estatísticas oficiais, que aumentam no momento em que eu escrevi isso e enquanto você está lendo. Acontece todo dia, nós sabemos, mas quando é com a gente, dói muito. E com uma pessoa como o Murilo, dói ainda mais, sangra, não há gaze nem carinho que cauterize essa chaga.

Enquanto a família se mobilizava para o enterro, fui ver o carro. Era o meu carro, pois tínhamos o costume de fazer operações casadas. Quando eu, leigo em mecânica, trocava de carro, ou meu anterior, pouquíssimo rodado, pois ao contrário da moto, quase não sai da garagem, era passado pro Murilo.

O carro acabou, o eixo traseiro foi arrancado com a força da batida. Olhando aquele monte de ferro retorcido, fiquei pensando, se o Murilo tivesse se demorado um pouco mais no caminho, parado para fazer alguma coisa, se o tal caminhoneiro fdp não estivesse com tanta pressa, ou parado para ir ao banheiro ou coisa que o valha, várias hipóteses que evitassem a tragédia passaram pela minha cabeça.

Mas nenhuma delas se concretizou, e quis o destino que a carreta viesse desgovernada de lá e o meu amigo de cá.

Com a ajuda de alguns dos muitos amigos dele, especialmente o Getúlio, o Fernando, o Orlando e o Duda, encontramos um abrigo para o carro e liguei para a seguradora. Conversa triste e sofrida para mim, profissional para quem estava do outro lado da linha.

O próximo passo foi pegar o Boletim de Acidente de Trânsito, popular ocorrência. Segundo os policiais da Polícia Rodoviária Federal, o BAT estaria disponível na Internet. Mas a página deles está com um problema na autenticação.

Depois de dois dias e centas tentativas, ligo para o posto da PRF e sou informado que o problema acontece desde o início do mês, e se deve ao fato de que a PRF está trocando de prédio em Brasília e nessa fase de transição essa falha vem acontecendo com freqüência.

Fico aborrecido, imaginem o número de acidentes que acontecem todos os dias. Pois é, ninguém, nem mesmo os guardas, consegue registrar ou acessar os dados dos envolvidos. Depois de muita discussão, o guarda na outra ponta da linha concorda em ler para mim o resumo do BAT, que atribui a culpa do acidente ao motorista da carreta, menos mal. Mas o fato é que o serviço de registro está pior do que há trinta anos, pois não existe mais o Livro de ocorrências, vai tudo para o computador, para o ‘sistema’. E se o sistema for manipulado, sofrer um pico de voltagem e queimar? Babau. Bom para os culpados, péssimo para as vítimas…

Nada do que pague, pense ou escreva vai trazer o Murilo de volta. Ficam as lembranças, as risadas, as saudades.

Saudades de uma pessoa que como poucas, pouquíssimas, conseguiu unir razão e sensibilidade.

Saudades de uma pessoa que teve uma vida curta, mas nunca, jamais, em tempo algum, pequena…

Fausto Macieira

 

PS – A maioria das imagens que ilustram esse artigo são do Murilo Sérgio Laroca de Araújo Porto. A fotografia era uma de suas paixões, e muitas foram cedidas para publicações no Brasil e no Exterior.

Para ver a galeria completa, sobre a qual eu sou suspeito para falar, mas considero admirável em todos os sentidos, clique aqui.